Nuvem Chucrute: minha Gastmutter e a culinária alemã
Até que enfim tive uma idéia pra postar. A partir de hoje, caros leitores, inauguro uma série de textos sobre o meu fantástico intercâmbio na terra da Heidi Klum. Como eu sou muito criativa, batizá-lá-ei de… NUVEM CHUCRUTE! êêê! Para começar, falarei da maravilhosa pessoa que me acolheu, a minha fabulosa Gastmutter - numa tradução porca e literal, mãe hospedeira.
(Tudo bem que chamando ela de “mãe hospedeira” eu me sinto um carrapato, mas beleza. Vocês entenderam o meu ponto.)
Sem mais delongas, vamos ao primeiro episódio da série “Nuvem Chucrute”!
Não sei nem por onde eu começo a descrevê-la. Frau Johanna, conhecida nasboca como Frau Iô, 70 anos, solteirona - portanto, sem filhos ou marido - e o pior de tudo: alemã. A casa, lógico, cheia de bibelôs, fotos de crianças e souvenirs dos mais remotos lugares do mundo. Apesar de tudo, minha primeira impressão foi muito boa: uma velhinha simpática, para os padrões alemães, claro, e inofensiva que gosta de viajar.
Ah, quanta ingenuidade.
Lá pelo terceiro dia, estava eu tomando sossegada a porcaria do café. O café alemão é muito, mas MUITO ruim. Pra piorar, o açúcar é terrível. Ele demora anos pra se dissolver, e ainda por cima não adoça. Então quando eu estava colocando a terceira colher de açúcar no meu café (pra ver se ficava menos ruim), ela me dá um olhar de profunda reprovação. Estava esperando algum comentário, mas ela não falou absolutamente nada. Fiquei feliz que ela respeitou os meus gostos gastronômicos. Que beleza!
Ah, quanta ingenuidade. [2]
Umas seis horas da tarde do mesmo dia, chego eu com o equivalente a 10 euros em chocolates - isso é muita coisa, acredite - e uma garrafa de coca-cola (de um litro, porque a de dois é muito difícil de encontrar). Chocada com a quantidade de alimentos cariogênicos que eu despejei em cima do meu criado-mudo, no jantar ela inicia a seguinte conversa:
frau iô: você sabia que num copo de coca-cola tem 13 colheres de açúcar?
eu: puxa, que coisa. *gole de coca*
frau: pois é. as famílias alemãs JAMAIS colocam coca-cola na mesa do jantar. porque nós ensinamos, desde crianças, que coca-cola faz muito mal a saúde.
eu: nossa, que superdemais. lá em casa todo mundo e coke-a-holic, que nem eu. aliás, a mais viciada em coca na minha casa é a minha mãe.
frau: *choque*
eu: *gole de coca*
frau: as crianças alemãs sabem que açúcar faz muito mal, então elas muito raramente comem chocolates e coisas do gênero.
eu: puxa, que coisa.
(Ah tá. É por isso que a Nutella é um xucesso e tem aquele vidro gigante, né?)
(…)
frau: essa gordura aqui (passa as mãos no culote) é muito ruim pra saúde, sabe.
eu: ah é? puxa, que coisa.
frau: é… se você perdesse uns cinco quilos, ia ser excelente.
eu: *choque*
frau: (:
eu: *puta* (pena que eu não vou, hihi. vaisefoder, beijomeliga)
frau: é, porque eu tinha uma estudante da China, a Chichi (HAHAHAHA) que só comia três grãozinhos de arroz, uma dama! (…)
(ficou falando da Urina por uns 15 minutos, sobre como ela era perfeita, incrível e etc.)
Tá, eu tava mesmo gorda e uns cinco quilos a menos seriam sensacionais. Agora, precisa jogar na minha cara? A verdade dói!
Acertei na loteria. Sem internet (esqueci de mencionar essa?), com uma gastmutter que diz na minha cara que eu sou gorda, fica me comparando a uma chinesa com um nome escatológico e ainda quer me obrigar a “ser saudável”. Que nem as malditas criancinhas alemãs. Aliás, que vidinha de merda que tem essas crianças. O que é uma existência sem níveis overdósicos (existe essa palavra?) de açúcar e coca-cola no café-da-manhã? É UM FLAGELO!
Alguns dias depois, sento na mesa do jantar morta de fome, esperando ansiosamente comer alguma daquelas salsichas sensacionais com batata (L).
frau: hoje vamos comer um prato típico alemão, uma especialidade deliciosa.
eu: êêê!
frau: eu adorava quando era criança.
eu: ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!
frau: ASPARGOS COZIDOS COM SALADA DE PEPINO E RABANETE!
(pegadinha do mallandro, né? CADÊ A CÂMERA? CADÊ A CÂMERA?)
eu: aspargos? pepino? rabanete? pouts, que delícia hein. *cara de nojinho contido*
frau: você gosta?
eu: bom, essas coisas não…
frau: coisas? COISAS? esse aspargo custa não-sei-quantos euros, é uma especiaria, deliciosa… porque todas as criancinhas alemãs (…)
E eu tive que comer o delicioso aspargo de cinco milhões de euros acompanhado com a maravilhosa salada cultivada nos alpes suíços por freirinhas cegas. Porque, afinal de contas, todas as criancinhas alemãs babam de apetite só de pensar nessa maravilha gastronômica.
Depois ainda me perguntam como é que eu não engordei mesmo comendo 10 quilos de chocolate por semana.
