Quatorze anos
Sabe quando você tá lá embaixo, olha pra frente e vê aquela montanha enorme esperando pra ser escalada? Um sol do caramba, nada de protetor solar ou óculos. Não há outra opção senão subir a porcaria da montanha. O começo é traumático, te chutam pra um lugar desconhecido e você não faz idéia do que está acontecendo. Mas segue em frente e começa a subir. E sobe. E sobe. Parece que o topo fica só mais longe.
Quanto mais pra cima, mais difícil fica. Cada passo é um peso a mais na bagagem que você tem que carregar durante todo o trajeto. Ninguém pode te ajudar nessa. É chato, é cansativo, é aparentemente inútil e não acaba nunca. Passam-se horas, dias, meses. Tantas coisas melhores pra fazer, tantos episódios de Power Rangers pra ver, tantas Barbies pra pentear!
Ainda que o topo seja o objetivo, é complicado olhar pra frente e esperar o melhor. Olha-se para baixo e dá uma vontade enorme de voltar. Lá não era tão íngreme, lá não carregava tanto peso. Era tão mais fácil! Não dá pra retornar. Só se pode olhar pra cima. Não resta outra opção senão respirar fundo e seguir em frente.
O caminho não é de todo ruim. Ainda que seja uma missão solitária, sempre encontram-se pessoas para andar ao lado. Umas vão juntas até o fim, outras nômades caminham um pouco sozinhas, um pouco acompanhadas. Algumas das pessoas que você ama provavelmente nunca teriam cruzado seu caminho se não fosse pelo objetivo em comum: subir a porcaria da montanha.
Não raro encontra-se alguém de quem não gosta. Durante algum tempo, é necessário que você ature a pessoa. Vocês brigam, xingam, se estranham. E você aprende a ofender, ser tolerante e a pedir desculpas. Ou não, continua um cabeça-dura. Fazer o quê, a montanha não é só sua.
Alguns pedaços são lindos, com paisagens de encher os olhos. Outros são terríveis, e você se preocupou tanto em fechar os olhos e pensar em outras coisas que esqueceu do que viu. O pior de tudo é que talvez não fosse tão ruim assim. Denovo aprendem-se outras lições. Ainda falta muito.
O melhor de tudo é superar os obstáculos, ter aquela sensação maravilhosa - ainda que breve - de vitória. Chutar a pedra que estava no meio do seu caminho e continuar, subindo mais e mais. As dificuldades aumentam. Agora, você precisa pensar para ultrapassá-las. Mesmo que demore, eventualmente você consegue. E vibra denovo, e continua subindo.
Cada vez mais dá aquela vontade de descer e começar denovo. Falta tão pouco agora, o topo é quase visível! Não dá pra sentar e descansar agora, muito menos desistir. Está ali, logo ali. Passaram se anos. Você olha pra baixo e não acredita na quilometragem percorrida. Sente sua bagagem e não acredita que, afinal de contas, ela continua com você, mesmo parecendo tão leve às vezes.
Minha caminhada está chegando ao fim. Para ser mais exata, restam-me 15 dias. Até começar a escrever este post, não tinha me tocado de que acabou. A montanha, enorme, gigante, assustadora, foi escalada. Estou no topo. É engraçado ver as coisas daqui. Todos os caminhos que eu poderia ter escolhido, todos os meus companheiros, todos os obstáculos. Cada opção que eu fiz, cada passo que eu dei, cada lembrança querida, cada tombo. Coisas que pareciam ser tão insignificantes são agora parte do que eu sou.
Parece que foi ontem que eu tinha medo da multiplicação, da 5ª série, das portas enormes do meu antigo colégio. O mais estranho é que não foi ontem, foi há muito tempo atrás. 14 anos, agora faltam só 15 dias. Ou seja, nada.
É, estou no topo. O que é que dá pra ver daqui? Uma descida. Gigante, tão grande que não consigo ver onde é que ela vai. Não sei o que vai acontecer se eu descer, só sei que devo. Mas, como boa menina que sempre fui, me reservo o direito de descer a bosta da ladeira como eu quiser.
Como é que eu vou? Simples. Vou pegar a minha bagagem, que teria de servir pra alguma coisa, vou sentar em cima dela, e vou descer assim mesmo, como se fosse um tobogã. Quanto ao caminho, só tenho uma certeza: quando chegar lá embaixo, estarei quebrada. Se é muito ou pouco, não sei.
Independente dos resultados, vou fazer o que tenho que fazer. Juntar minhas coisas e seguir em frente, sempre. Que venham as montanhas maiores.
