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23 de outubro de 2006
A parte não glamurosa do amor
postado às 19:24 em Devaneios, Fábulas. 12 comentários.

Os sons da pequena reunião ecoavam pelo corredor. Das as muitas vozes que ouvi, quase de imediato identifiquei uma, talvez a que melhor conheço. Foi o suficiente para meu corpo congelar, como se todo sangue presente em minhas veias tivesse desaparecido. Parei na frente da porta, colocando meu dedo indicador sobre o botão da campainha, tentando adiar minha entrada. A porta do elevador fechou, e com o susto, apertei o botão. Tentava desesperadamente me convencer de que tudo daria certo.

O anfitrião abriu a porta, e, sorrindo, me abraçou. O abraço era, na verdade, um pedido de desculpas, mas ambos sabíamos que era inevitável. No segundo que entrei na sala, nossos olhares se cruzaram. Não sei ao certo se foi por uma fração de segundo ou por quinze minutos, só me lembro que, por algum motivo qualquer, todos os meus medos se dissiparam.

Cumprimentei à todos de maneria igual. Inclusive a ele. Um beijo no rosto, o abraço porque não nos viámos a tempo. Quase dois anos. Não conversamos muito, perguntei pela irmã e pela mãe. Sorrindo, disse que ele continuava o mesmo. Ele falou que eu tinha mudado bastante. Vieram em meu resgate convidando-nos a sentar.

Ele sentou justamente em minha frente. Alheia à absolutamente tudo, imaginava se eu realmente mudei. Sem dúvida, amadureci. Tornei-me mais cética, meu humor está sensivelmente mais cruel, meus cabelos já não são mais tão rebeldes, o stress do início do ano me fez engordar alguns quilos. Enquanto ele continuava o mesmo, tão - ou talvez até mais - imaturo quanto era.

Algumas vezes lançou olhares em minha direção, procurando, em vão, uma demonstração de amor. Me lembro bem do medo que senti nas primeiras vezes que ele olhou bem fundo nos meus olhos. Sentia que ele conseguia enxergar meus mais íntimos pensamentos, quase como se lesse minha mente e premeditasse cada uma de minhas ações. O olhar que me tragava e entorpecia agora apenas me envaidece.

É engraçado como dois caminhos quase únicos tomam rumos tão distantes. Passávamos boa parte de nosso tempo livre juntos. Lembro-me bem da paciência com que ele tentava me ensinar a andar de skate, e eu tentando ensiná-lo Química. Não sei se era mais feliz com ele, talvez realmente fosse. Praticava mais esportes pelo menos. Fizemos nossas opções, e aí estão. Vê-lo novamente serviu para enterrar o resto de amor que existia dentro de mim, e provavelmente o dele também.

Apesar de tudo, me diverti muito. Fui a última a ir embora, deviam ser umas 7 da manhã. Pude observar prelúdio de um dia magnífico.

Andando pela rua, sabia que aquela era a última vez que o veria. Sentia-me mais leve, não sei se pela minha recém-adquirida sensação de liberde ou por finalmente perceber vazio que se instalara.



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