nuvempimenta.org
um blog sem nenhum compromisso com a verdade e/ou sanidade
Cada dia que passa, é um dia a menos pro vestibular. Minuto a minuto, a raiva que sinto por essa porcaria de prova aumenta. Primeiro porque eu tenho dezessete anos, caramba. Não sei nem se sou de centro-direita ou lateral-esquerda, como é que posso estar tão certa da carreira que vou seguir pro resto de minha vida? Só a minha voz interior e aquelas porcarias de testes vocacionais?
Segundo porque está me deixando maluca. Há dois meses, estou doente. Tomei remédios, descansei, fiz tudo que normalmente curaria esta minha gripe, mas ela não vai embora. Não consegui dormir de domingo pra segunda. Minhas olheiras estão cada vez mais profundas, estou cada dia mais esgotada.
Há alguns meses - talvez até semanas - atrás, eu tinha surtos fantásticos de criatividade, visões psicodélicas de realidades paralelas felizes. Agora, simplesmente não consigo. Talvez porque “my face will never show what is not real”, como já disse Anthony Kiedis. Não consigo olhar para o céu e ver que o sol vai sair - consigo apenas calcular a distância e a velocidade com que uma gota de chuva de massa 0,3g cairia em minha cabeça caso chovesse.
Não consigo mais escrever minhas amadas redações, porque preciso estudar as malditas exatas que sempre me matam. Claro que as duas primeiras coisas que eu corto quando meu tempo aperta são o meu amado blogolino e as aulas de redação.
É sufocante. O que eu acho mais engraçado é que minha famÃlia não faz pressão alguma para que eu passe este ano - justamente o contrário. Querem que eu relaxe e que seja o que Jimi quiser. Mesmo assim, me sinto mal. Não estou ansiosa ou nervosa com a prova, estou apenas profundamente irritada com tudo isso, toda essa atmosfera de competição.
Por exemplo, meu texto. Modéstia à parte, eu escrevo relativamente bem. Concordância, pontuação, vocabulário. Sabe qual foi a pior nota que eu tirei nesta última rodada de provas? Não, não foi matemática nem fÃsica. Foi justamente em português. Irônico. Não sei a diferença de um predicativo do objeto ou de um.. sei lá, merda. Não consigo acertar se é um zeugma ou uma elipse. Sou péssima em identificar os processos de formação da palavra.
O que mais me mata é que tenho sido punida por ser criativa. Tirei 7 nessa redação com a justificativa de que “era muito boa, porém densa, portanto o corretor poderia não aprofundar-se nela da maneira que deveria”. Tirei uma nota baixa por ser diferente. Por saber escrever de um jeito diferente, que requere uma ou duas leituras pra se entender o que está sendo dito. Fui punida por fazer um texto que exige leitores pensantes. Concordo que não merecia um dez, mas pelo menos um 8,5. Fui ler as redações “notadez”, e como previ, são de autoria dos mesmos CDFs que falam as mesmas coisas dos mesmos assuntos, daquela mesma maneira, com uma introdução, três parágrafos e uma conclusão.
As “sacadinhas” - tiradas engraçadinhas súperinteligentes -, a crÃtica à sociedade e a culpa do governo/mÃdia/sistema. É frustrante pensar que o curso que eu almejo estará apinhado de CDFs com a mesma roupa, com o mesmo pensamento, focados em fórmulas, números e livros, pra sempre encilhados por uma rotina igual. É quase como se eu estivesse andando na calçada, bela e formosa com minha blusa azul-bebê da Hello Kitty e meus cabelos gracilmente desarrumados, e todos os outros estivessem andando na outra direção com seus macacões cinza.
Essa minha indignação já vem de tempos, mas eu tinha conseguido sufocá-la. Até ontem, quando estava naenfermaria por causa de minhas dores de cabeça permanentes, uma menina chega carregada porque teve um colapso nervoso no meio da aula de QuÃmica B. Então é isso, o vestibular não passa de uma prostituição mental, uma massificação de conhecimentos, conceitos, opiniões, desejos.
Sinto que um pedaço de mim murchou. Adormeceu, talvez. Os meus óculos de visão tetradimensional sumiram. Os de visão arco-Ãris também. Então, a não ser que eu realmente trombe com um elefante laranja na rua, não esperem posts engraçados. Também não há a necessidade de preocupação com meu estado fÃsico ou mental. Estou bem, apenas cansada e profundamente irritada com o governo, a mÃdia e o sistema. Fodam-se todos. Não mudo, não mudo e não mudo.