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18 de dezembro de 2006
Conversas de padaria
postado às 13:08 em Fábulas, Toptops. 26 comentários.

- Tá tudo bem contigo? Estás branca como a neblina, guria!
- Fui assaltada, senhora! Agorinha mesmo, no meio da rua!
- Meu Deus! E o que te roubaram?
- Meu bem mais precioso. Aquele que guardei com zelo durante anos, se perdeu em questão de segundos.
- Então é bem feito! Quem mandou andar com coisas de valor pela rua? O que era? Dinheiro? Diamantes? iPod?
- Antes fosse.
- Aqui, água com açúcar. Desembucha, o que foi?
- Meu coração, dona Maria Helena. Levaram meu coração.
- Mas não é possível. Logo o teu? Este mundo é muito louco mesmo.
- Nem me fale.
- Te machucaram muito?
- Olha aqui ó, sangra ainda. Será que vai cicatrizar?
- Essa é das grandes, minha filha. Parar de sangrar, isso para. Mas talvez nunca cicatrize.
- Não me fale uma coisa dessas, dona Maria Helena. Meu professor me ensinou que o primeiro vêm as plaquetas, depois o tecido conjuntivo. Ainda que fique uma marca, vai curar!
- Não seja ingênua, guria. Esse tipo de ferimento é diferente. Vai fundo aonde os olhos não enxergam e as mãos não alcançam. É na alma.
- Isso quer dizer que… vai doer assim, pra sempre? Ainda que eu consiga reaver meu coração?
- Eventualmente, terás teu coração de volta. Mas vais carregar a tua marca pra sempre. É parte de ti agora. Talvez esqueças dela, talvez não.
- Não existem curativos pra esse tipo de ferida não? Essa vai ser uma cicatriz das boas, pior do que a do meu joelho.
- A única coisa que podes fazer, pequena, é parar de mexer nela. Deixa aí, com sorte tu arranjas alguma distração pra te fazer esquecer a dor. Agora vai, escolhe um sonho e vai-te embora. Tens um caminho enorme pela frente.

Sim, o texto é meu. Dã.



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