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Não importa em que parte do mundo você esteja, entrar num elevador com pessoas desconhecidas é um convÃvio social forçado, frustrante e desagradável. Depois de 17 longos anos sendo passageira dessa maravilha da vida moderna, apresento-lhes o mais completo estudo sociológico sobre elevadores. Pude observar que as cenas abaixo descritas se repetem freqüentemente com poucas variações, então, para dar uma maior precisão e simplicidade, dividi-las-ei em três situações-base. Contemple e maravilhe-se, amiguinho.
Situação “a”:
- Oi.
- Oi.
(silêncio)
- Tchau.
- Tchau.
Nos minutos de silêncio, alguns olham para os pés, os mais descarados olham-se no espelho. Outros, criativos, mexem no celular. É um reflexo de nossa sociedade capitalista e individualista, aonde vizinhos não se conhecem e não se importam com o próximo um mÃnimo suficiente para estabelecer uma conversa superficial amigável.
É a situação mais freqüente.
Variação: o elevador pára aonde é solicitado, já com duas ou mais pessoas Ãntimas que conversam animadamente sobre algum outro assunto. Esse fato obriga o novo passageiro a não só isolar-se, mas também fingir que não está prestando atenção numa conversa que acontece a quarenta centÃmetros de seu território. Note que os demais passageiros também não se incomodam com o “intruso”, ignorando-o. Um caso clássico de exclusão social, podendo afetar mortalmente o sub-gênero “emo”.
Situação “b”:
- Oi.
- Oi.
(silêncio)
- Tá frio hoje hein?
- Pois é… mas a previsão pra amanhã é sol.
- Que bom.
- Já era hora né?
- Sim, já estamos em outubro!
- Pegar uma prainha, hein? (risada forçada)
- E não é? (risada forçada)
Pára o elevador.
- Tchau!
- Tchau.
Já aqui, as pessoas já são Ãntimas o bastante para falar sobre temas que não requerem um grau de instrução elevado, como o tempo ou profanidades dirigidas ao nosso dignÃssimo Prezidente. Amigável, mas ainda assim desconfortável.
Variação: com o advento do “ElemÃdia” - aquela televisãozinha que fica passando notÃcias e previsões do tempo nos elevadores de prédios comerciais. Se tem bastante em Fiofópolis, imagino que tenha em outras capitais também - as conversas têm se aprofundado mais, e o debate sobre o sol de domingo é bem mais preciso e conta com um embasamento cientÃfico. É claro que essa variação restringe-se aos elevadores comerciais.
Situação “c”:
- Bom dia.
- Bom dia!
(silêncio)
- Então, como é que vai seu pai?
- Bem, obrigada.
- E seus avós?
- Também estão ótimos :)
- Os vi na rua ontem. Excelentes pessoas.
- Poois é.
(silêncio)
- Como tu estás parecida com tua mãe, hein?
- Pois é. Tchau :)
- Tchau :)
Agora o grau de intimidade entre os passageiros é consideravelmente maior, pois podemos observar que o passageiro 1 conhece praticamente toda a árvore genealógica do passageiro 2. Um fato interessante é que o 1 pergunta sobre quase toda famÃlia de 2, esquecendo-se do mesmo. É claro que o passageiro dois não é de todo inocente. Mesmo a situação atual de sua famÃlia estando um total e completo caos, ele responde conforme os bons costumes à pergunta retórica do passageiro 1.
Foi durante uma situação “a”, enquanto revisava mentalmente meu estudo sociológico que percebi que havia uma nova, ainda não existente em Fiofópolis: trilha sonora nos elevadores. Observe:
Situação “d”:
- Oi.
- Oi.
(silêncio)
- Ruim essa música, não?
- Realmente.
(silêncio)
- Tchau.
- Tchau.
Música nos elevadores foi, provavelmente, invenção de algum colega sociólogo. Brilhante. Não só ajuda a preencher os eventuais e inevitáveis silêncios como ainda dá margem para mais assuntos superficiais, bastante semelhantes com a situação “b”, porém dirigidos especificamente para áreas musicais.
Variação: Antes do silêncio nº2, há um leve debate civilizado sobre música, podendo inclusive acabar em um silêncio desconfortável ou muito raramente, lágrimas - caso restrito, novamente, ao sub-gênero “emo”.
Nas próximas semanas, continuarei observando o comportamento social em elevadores, catalogando possÃveis situações novas. Não se preocupem, manterei um relatório atualizado :)
Até a próxima _o/