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04 de setembro de 2006
Kátia Flávia, a godiva do Limoeiro
postado às 10:25 em Devaneios, Fábulas, Toptops. 18 comentários.

Se você não aprecia uma boa viagem à terra da Rainha Gaby, pode ir direto lá pros comentários e deixar um “haha amei o texto lindo seu blog visita o meu beijos” que eu não vou ficar chateada/braba. Sério mesmo. Essa vai ser uma viagem absurdamente insana.
Ok, vejo que você decidiu continuar. Vamos lá.

Nada como aulas de genética para questionar se somos ou não filhos de nossos pais. Uma coisa que sempre me intrigou demais é o fato de que tenho cabelos crespíssimos, diferente do resto de minha família. Enquanto o professor divagava sobre fator Rh e eritoblastose, comecei a pensar sobre minhas verdadeiras origens, tentando me lembrar quem foi o desgraçado que me amaldiçoou com esses cabelos indisciplináveis…

Respire fundo, e bem-vindo a bordo o/

Seu nome era Kátia Flávia, mas não era a godiva de Irajá. A música veio depois, junto com a perseguição e as piadinhas. Ela era uma mulata alta, corpo escultural, cabelos cacheados e lábios fartos. Vivia solta como o vento, fazia o que queria, quando queria. Sua vida era simples, porém extremamente confortável e feliz. Kátia Flávia morava em uma casa com um banheiro, um quarto, uma modesta sala-cozinha, localizada no bairro do Limoeiro.

Jovem, tinha todos os homens aos seus pés. Não importa aonde fosse, no mercado ou na boate badalada, sempre era galanteada pelo mais bonito. Nunca teve um relacionamento estável, porém. A idéia de prender-se a pudores, regras, preconceitos, era inconcebível para Kátia. No entanto, um homem conseguiu domá-la. Danilo Rodolfo.

Assim como Kátia Flávia, Danilo Rodolfo era um belíssimo jovem, de espírito tão livre quanto o dela. Danilo era de família rica, o que os propiciava aventuras mais altas, como viagens à Paris e Havaí. Acampavam em praias desertas, pulavam de para-quedas, surfavam juntos. Um conto de fadas real. Mesmo com a desaprovação dos pais dele, eram felizes, feitos um para o outro. Os que conheciam Kátia Flávia afirmavam que esse romance era fogo de palha, pois era quase impossível domar a mulata.

No entanto, passaram meses nesse amor intenso. Era abril quando foram vistos juntos pela última vez. Kátia Flávia ficou muito tempo sem aparecer no Limoeiro, nos barzinhos que amava. Todos se perguntavam o que havia acontecido com a godiva do bairro. Teria ela se casado com Danilo Rodolfo e abandonado o bairro? Cometido um crime e trocado de identidade? Ou talvez virado modelo em São Paulo? Era um mistério. Havia sumido do dia para a noite, deixando tudo para trás. Não viera buscar roupas, móveis, absolutamente nada.

Danilo Rodolfo também não dava sinal de vida. A família já pensava o pior - Kátia Flávia devia ter o matado para conseguir dinheiro, ou casaram-se e ela agora quer a herança. Do Limoeiro, devia mesmo ser uma rameira, uma biscate. Estava-se cogitando a possibilidade de contactar a Interpol para localizar os dois.

Foi quando Gerúndia Augusta recebeu a notícia de que seu filho estava voltando da Rússia com a namorada. Não se sabe ao certo como, mas Gerúndia era uma mulher extremamente perspicaz. Aquela seria a última viagem de Danilo Rodolfo e Kátia Flávia. Demoraram meses para voltar, quase dez. A mãe de Danilo Rodolfo, intrigada com a mulher que havia enfeitiçado seu caçula - e único filho homem - foi ao encontro deles no aeroporto. Escondeu-se atrás do guichê da Hertz, temendo a ira do filho ao vê-la. Sua relação não era das melhores na época.

Qual foi seu espanto ao ver, às duas horas da manhã, o filho voltando com um chapéu medonho de pêlo de castor, uma mala enorme numa mão, e um bebê na outra. Correu de encontro ao filho, chorando em prantos. Sentia que o bebê era seu neto. O primeiro, que nem viu nascer! Danilo Rodolfo, ao ver a mãe, também debulhou-se em lágrimas. Entregou-lhe o bebê, dizendo “mãe, esta é tua neta”. Gerúndia Augusta, ao pegar a neta nos braços, soluçava sorridente. Um momento de muita emoção no aeroporto de Fiofópolis. Várias pessoas ao redor paravam para admirar a cena.

“Onde está a mãe?”, perguntou Gerúndia. Danilo, agora ainda mais emocionado, respondeu que ela havia morrido no parto. Eles estavam em um a hotel pequeno, isolado pela neve. Kátia Flávia necessitaria de uma transfusão de sangue, que não chegou, e ela se foi. Seu último desejo é que a filha se chamasse Gabriela Regina.

Adentrou o aeroporto uma mulher alta, com um sobretudo branco e um turbante verde-turquesa, que afastava nervosamente os próximos à Gerúndia, Gabriela e Danilo. Com asco, ela olhou Danilo Rodolfo e o bebê. Fez uma longa pausa, e então perguntou por Kátia Flávia. Ele conhecia aquela mulher. Se ele apenas conseguisse lembrar…

Finalmente, a lembrança retornou a sua mente. Kátia Flávia, há muito tempo, havia comentado com ele que sua mãe era uma cigana, e que não tinham contato. Mostrou-lhe uma foto dela, inclusive. Ele olhou novamente a mulher, reparando na enorme semelhança com Kátia. Os olhos, o nariz, o cabelo. Era, com certeza, sua sogra. Com uma voz pesarosa, ele contou à mulher o que havia acontecido, a tragédia com Kátia Flávia e o nascimento da pequena Gabriela Regina.

Uma enorme tempestade começou, com direito a ventania, raios e trovões. A cigana afastou-se ao saber da neta. Muito chocada, apontou seu indicador com um enorme anel de turquesa para o bebê, e fora de si, bradou: “esta menina há de ser amaldiçoada pelo que fez; ela herdará a marca libertina de minha filha, e meu sangue cigano!”. Todos ficaram nervosos, Gerúndia tentou avançar na mulher, mas estava transtornada demais para agir. A mãe de Kátia Flávia deu meia volta e sumiu pela porta do aeroporto, nunca mais sendo vista.

Fim.

Epílogo

Nunca descobriram como a mãe de Kátia Flávia foi parar no aeroporto.

Danilo Rodolfo, sabendo que não poderia criar a menina sozinho, a deu para sua irmã, Rose Cristina, que a adotou e criou como filha. Nunca mais ouviu-se falar de Danilo Rodolfo. Uns dizem que ele voltou para a Rússia, e é voluntário da Cruz Vermelha. Outros, que enlouqueceu e foi morar na Amazônia. Sua existência foi abolida da família, seu nome nunca é citado. Foi excluído de todas as memórias, fotos, vídeos. Rose e Gerúndia preferiram esquecer que um dia Danilo Rodolfo existiu.

Rose Cristina, ao dizer para o marido que o nome da menina era Gabriela Regina, foi obrigada a remover o Regina, deixando apenas Gabriela. Não se sabe se a tal marca libertina apareceu, mas a moça tem os cabelos crespos, indomáveis como a mãe. O sangue cigano se manifestou logo cedo. Com seus 10 anos já mostrava interesse por astrologia e pedras místicas. Ela hoje vive bem, é saudável e não tem nem idéia de suas origens e o mistério que a cerca.

Conclusão

Eu sou, na verdade, russa e filha de um tio que não conheço com uma mulher que também não sei quem é. Minha irmã na verdade não é minha irmã, e minha real vó materna é uma completa louca. Por isso meu cabelo é crespo e o do resto da minha família é liso. Faz sentido, não?

Antes que os mais lerdos perguntam: não, esses nomes não são reais e não estou sob efeito de nenhuma droga alucinógena.

Fecha a cortina, as luzes são acesas. A plateia, atônita, não sabe se aplaude ou rasga o programa. Bate o sinal pro recreio e eu acordo :D



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