nuvempimenta.org
um blog sem nenhum compromisso com a verdade e/ou sanidade


Archive for the 'Fábulas' Category

07 de setembro de 2007
“La donna è mobile; qual piuma al vento”
postado às 12:57 em Devaneios, Diarinho, Fábulas. 12 comentários.

É, eu sei que eu tinha dado uma de Bruna Surfistinha e declarado que larguei dessa vida. Mas, tal qual uma alcólatra, tive uma recaída na semana passada na aula de redação. Tive que escrever um texto diferente - ou seja, nada de dissertações-padrão - sobre futebol, coisa que amo. Tentei, em vão, produzir algo decente. Foi então que, misteriosamente, ela voltou. Ela, minha amiga, fiel escudeira, que há tanto havia me largado. Kátia Flávia, também conhecida como minha criatividade.

O texto fluiu, consegui fazer uma narrativa bonitzinha. Quando terminei, me senti quase tão feliz como se tivesse comido um pedaço de Hershey’s Cookies’n'Cream. “Então era por isso que eu escrevia!”, lembrei-me. Entrei no blog, vi aquele layout antigo horrendo e resolvi que já era hora para um retorno triunfal. *aplausos, gritos enlouquecidos, uma mulher chora convulsivamente*

Aah, um layout colorido, branquinho e com o meu pattern favorito de fundo. Estou realizada. Lembrando sempre que tudo isso só foi possível graças ao Chefe do Setor de Tecnologia do Nuvem Pimenta, Shino, que desenvolveu o javascript meiguxo das etiquetas da direita e refez toodo o html da página porque estava dando merda.

Sem mais delongas, apresento-vos o texto que me libertou da minha desgraça. Não é lá o-melhor-texto-de-todos-os-tempos, mas… quem liga. Eu não :)

Trajado com a mais nobre das vestes, munido com a fé e a paixão que transcende o grito, ele espera. Ansioso para deliciar-se com a orquestra do improviso, o espetáculo coletivo, a catarse de uma nação, ele espera.

Sente o tato das estrelas bordadas com o mais fino ouro em seu peito. A história de cada uma, sabe de cor. A escalação, os gols, quase como se fossem seus. Consegue sentir a vibração do estádio, a alegria de cada jogador ao tocar a taça, ainda que isso tenha acontecido há anos atrás.

Abrir os olhos é supérfulo. Sabe, pelo som da torcida que o culto se inicia. Eles, pequenos lá embaixo, os ministrantes. Hipnotizados e compenetrados, seus fiéis.

Não consegue ficar sentado. Inquieta-se, exorcisa-se, naquele momento que é seu, atento aos detalhes daquela história, que é sua. Não é mais um homem, um ser individual. É uma célula daquele organismo vivo, que vibra em uníssono.

As instruções que dá, as instruções que brada são em vão, e ele sabe disso. Mas continua. Agarra o escudo do time como se toda a glória do clube estivesse ali contida.

Já não pisca os olhos, já não pensa e não respira. Apenas acompanha o movimento, antecipando os segundos que se dilatam, envolvido pela magia de um homem, que com a bola nos pés torna-se seu deus por alguns instantes. Junto com aquela multidão de sentimentos, vidas, explode. Grita, pula, abraça - sinceramente - um desconhecido.

Sai do estádio vitorioso, ostentando a camisa com ainda mais orgulho. Manda bordar outra estrela, como o rei que manda fazer sua coroa. Pendura aquele pedaço de si no armário, contempla, saboreia a sua glória. E espera.

Só uma observação: você sabe que uma pessoa está com sérios problemas de ordem emocional quando ela classifica futebol como “orquestra do improviso”. Que medo de mim.



Página 2 de 12«12345»Primeiro »