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Archive for the 'Toptops' Category

23 de janeiro de 2007
Surfar é uma brasa, mora?
postado às 23:36 em Diarinho, Toptops. 21 comentários.

Prólogo

Há muito tempo, convivo com o fato de que sou uma total e completa lesada em todos os esportes já inventados pela humanidade. Excetuando, é claro, os legais, tipo levantamento de copo/controle remoto/colher de brigadeiro. Tentei anular esse fato experimentando os mais variados tipos de atividade física. Futebol, vôlei, basquete, handebol, pular corda, pogobol, dança performática, skate, tênis de mesa, natação, ginástica olímpica, tudo o que pude encontrar. Venho colecionando fracassos desde então. Éé. De cortar o coração.

Brasileira que sou, tive uma idéia brilhante enquanto passeava pela praia num dia ensolarado. Surf! Se maconheiros parafinados conseguem ficar em pé em cima de um pedaço gigante de fibra, eu, uma dama da alta sociedade florianopolitana, também conseguirei. Achei uma escolinha legal, com preços razoáveis, e lá fomos eu e minha irmãzinha. Nossa primeira aula estava marcada para o dia seguinte, às nove horas da manhã.

Kelly Slater que se cuide, porque aí vou eu!

O Primeiro Dia

Amanheceu chovendo. Muito. Mesmo assim, decidimos ir lá no barracão da escolinha pra encontrar nosso professor, Tartaruga - um bróder de responsa, sabe qualé?. Chegando lá, descobrimos que estávamos sozinhas. É, um começo promissor. Resolvemos esperar.

Minutos depois, a chuva diminui e o Tartaruga chega. Seguimos para o costão leste da praia, junto com nossas adoráveis pranchas amarelas de dois metros. Assustadoras. Sentados na areia, o professor nos dá uma aula teórica sobre ventos, tipos de onda, bancos de areia - assuntos de fundamental importância na minha carreira de surfista ass-kicker e banhista consciente. Uma hora depois, achei que estávamos prontas pra dropar, o que quer que isso signifique. Enganei-me.

Tartaruga desenhou na areia duas pranchas, e nos fez ficar praticando o pulo que tem que dar na hora de pegar onda. Graças àsminhas aulas de ballet, ginástica olímpica e dança performática, o fiz com perfeição. Isso vai ser ridículo! Não sei como não pensei em surfar antes. O professor fez questão de salientar que era pra tomarmos cuidado ao segurar a prancha pelo leash - aquela cordinha -, pois se não pegássemos com força, poderia machucar. Que tipo de idiota segura a prancha pela cordinha? Maconheiros.

Devidamente alongadas, seguimos para o mar. Lá pude constatar que dar pulinhos não é tão legal quando o chão se move a sei lá quantos quilômetros por hora. Não consegui ficar em pé na prancha de jeito nenhum.

O tempo ficou feio denovo, a chuva aumentou e tivemos que ir embora. Uma pena, eu estava adorando pegar jacaré de prancha :)

O Segundo Dia

Finalmente um dia bonito. Aula teórica, pulinhos e vamos surfar. Minha irmã consegue ficar em pé, o que me faz ficar ainda mais frustrada. Estava sendo humilhada por uma criança de dez anos de idade. Não importa; tenho um futuro glorioso. Aposto que o Kelly também engoliu muita água antes de começar.

Logo no início, eu estava no meio do caminho pra levantar quando um argentino maluco se jogou na minha frente. Tive que deitar denovo e fazer uma manobra radical pra não acertar o retardado com minha prancha de dois metros. Consegui, mas caí feio e levei um caldo. Quando me levantei, enquanto checava se todas as partes do meu biquíni estavam em seus devidos lugares, senti que tinha me machucado: ralei meu joelho. Que merda.

Pensando bem, não é tão ruim assim. Se ficar uma cicatriz, quando me perguntarem sobre ela, vou poder dizer “ah, isso foi quando eu tava surfando”. Putz, súperdemais! Sempre quis dizer algo do gênero!

Finalmente consegui ficar de pé. Muito, muito legal, ainda que numa das vezes que caí da prancha, tenha feito um semitopless. Só não foi total porque estava usando aquela camiseta de lycra. Agradeci mentalmente o Tartaruga por ter me obrigado a usá-la.

Mal posso esperar pra pegar uma onda de verdade :D

O Último Dia

Como o pacote que nós compramos era de três dias, esta é a última aula. O Tartaruga achou que poderíamos surfar numa prancha menor. Não sei direito quanto essa mede, mas só fato de não ter dois metros me deixa um pouco mais aliviada. Ficar passando com aquele trambolho por baixo das ondas é um saco.

Acabei por descobrir que argentinos são suicidas. Mais um se jogou na minha frente, só que o problema foi que dessa vez eu estava de pé. Uma manobra mais radical ainda, tudo pra não acertar o infeliz com o bico da minha prancha. Imagino que salvar a cabeça dele não valeu o meu esforço, mas enfim. Levei outro tombo feio, mais um machucado na perna.

Essa coisa de esporte radical está começando a me irritar. Sangue e água salgada não é uma combinação muito agradável. Aguentarei firme, tudo pelo meu glorioso futuro no WCT.

Na metade da aula, estava voltando pro mar, depois de uma pausa estratégica pra ver como estava o pé torcido da minha irmãzinha, quando a água, que estava na minha cintura, foi parar mais ou menos na metade da panturrilha. Olhei, em pânico, pro Tartaruga que veio correndo me socorrer. Lembrei imediatamente da tsunami na Ásia. Merda. O Tartaruga agarrou minha prancha e disse pra eu mergulhar o mais fundo que conseguir quando a onda vier. Ok, eu consigo fazer isso.

Caralho, essa é provavelmente a maior onda que eu já vi. Será que dá tempo de correr pras montanhas?

Aparentemente, não mergulhei tão fundo quanto deveria. Senti a porcaria da onda estourando na minha cara, me carregando, e a cordinha da prancha puxando a minha perna. Achei que morreria afogada, logo após minha perna direita ser arrancada pela força do leash. A parte de cima do meu biquíni ficou presa somente no pescoço denovo, e meu cabelo se transformou numa massa disforme sobre minha cabeça.

Mal tinha me recuperado da minha experiência-de-quase-morte quando o Tartaruga me informou que era uma série de ondas grandes. Não deu nem tempo de arrumar meu biquíni, tive que mergulhar denovo com a agradável sensação de estar de topless. Fantástico.

Ao levantar, cuspindo a água que eu tinha engolido - não me espantaria se descobrisse que tinha engolido uma alga também - perguntei se dava tempo de correr pra areia antes da próxima onda. O professor, rindo da minha cara de desespero, disse que só se eu quisesse levar um caldo maior ainda. É, talvez eu fique por aqui então.

Duas ondas depois - é, foram quatro - eu me recuperei e fui surfar denovo. Minha alegria durou pouco, logo caí feio e ocorreu uma colisão frontal de forte impacto que me deixou meio tonta. Ou seja, levei uma baita pranchada na cara. Engolir água, argentinos suicidas, tudo bem. Agora, olé de prancha não dá.

Encerrando minha breve - porém intensa - carreira de surfista, peguei um agradável e seguro jacaré até a beira da praia. Ao sair do mar, acabei por me distrair e segurar a prancha pelo leash. Cortei meu dedo. Quer dizer, tirei um bife do meu dedo.

Epílogo

Mais uma vez, a minha inaptidão para atividades físicas se comprovou. O negócio é mandar uma cartinha para aquele programa da MTV gringa, o “Made”, e pedir pra eles me transformarem em qualquer coisa que me renda uma medalha. Ou então, me resignar a minha condição de anciã sedentária.

É, acho que vou ficar com a segunda opção.